De Noel a Joel – parte 3

Ernesto Nazareth foi fundamental para a criação da música popular brasileira, pricipalmente do que viria a ser o choro e, consequentemente, o samba. Ele era um grande pianista e um genial compositor, mas se angustiava por não ter estudado na Europa, e sua biografia é muito emocionante por conta destas e outras questões. Fez um triângulo importante com Heitor Villa-Lobos, que veio depois, e Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, ainda mais depois. Os três, com sólida e brilhante formação clássica, amantes incondicionais da música erudita, souberam trazer toda a sua riqueza para a música popular brasileira, e injetar a sua maravilhosa influência, que vai muito além dos ritmos sincopados, mas os inclui, na música internacional. Depois vieram os outros .

Nazareth tinha medo e vergonha de brotarem tantos “maxixes” dos seus dedos, e só queria mostrar suas valsas, queria ser sempre reconhecido como um intérprete de Chopin. No entanto, hoje é mestre e mentor até dos músicos que não o conhecem, justamente por ter sabido inventar a música brasileira, que é clássica e popular ao mesmo tempo. E mais: de seus maxixes e “tangos” brasileiros (eufemismo com que os publicava para não falar maxixe) se fez o riquíssimo e virtuosíssimo chorinho.

Voltando ao caso mais polêmico de autoria da MPB, Edigar de Alencar contou que Donga teria registrado a criação coletiva “Roceiro” com o título de “Pelo telefone”, como sendo de único autor. “O registro do samba (n. 3.295) não teve a repercussão que teria hoje. Música de muitos não era de ninguém. Não tinha dono, como mulher de bêbado [...]” .

Mais uma vez, vemos a tendência de considerar uma certa melodia e um ritmo como sendo quase que um gênero, que pode ganhar várias letras, ao sabor do momento. Esse seria o caso, o que importava era o “arranjo”, ainda não estava clara a concepção do que era a composição, e, como Donga registrou uma letra e uma música, e depois as gravou, ele estava traindo uma prática e, na verdade, ajudando a inaugurar outra: a autoria de uma canção popular, com letra nova e música “inédita”, ou, pelo menos, cuja repetição de melodia não fosse constatada (já que são sete notas, e tantas composições, não há como não repetir frases, ou como identificar todas as repetições).

Há duas versões, ambas apontadas por Donga, em momentos diferentes, como sendo as originais, uma sendo:
O chefe da polícia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta
Para se jogar

Ou esta outra versão, alternativa, que teria sido modificada por medo da repressão (ou seria a versão original, que foi – ela sim – mudada por Donga):
O chefe da folia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que com alegria
Não se questione
Para se brincar

A letra sempre continua assim:
Ai ai ai
Deixa as mágoas para trás, oh rapaz
Ai ai ai
Fica triste se és capaz e verás

Edigar de Alencar (p. 118) explicou a motivação da letra:
Os versos expressivos e benfeitos eram uma glosa sutil a um fato importante. O então chefe da polícia Aurelino Leal determinara, em fins de outubro daquele ano (1916), em ofício publicado amplamente na imprensa, que os delegados distritais lavrassem auto de apreensão de todos os objetos de jogatina encontrados nos clubes. Antes de qualquer providência, porém, ordenara que lhe fosse dado aviso pelo telefone oficial.

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