Alguma coisa sobre Caetano Veloso – parte 8

É a visão do seu “fruto do futuro” liberado, pois nunca fora “pássaro proibido de voar”, sempre foi nosso por essência, o “araçá azul”, o vegetal microcosmo que se integra na ecologia do todo planetário, e que é o germe do desejo e do prazer.

Os versos “Zabé come Zumbi >< Zumbi come Zabé” remetem ao Ouroboros alquímico, à miscigenação da humanidade e à antropofagia ritual conforme era praticada entre os índios americanos, que foi reinterpretada e re-valorada por Oswald de Andrade. Hoje sabemos – os cientistas fazem sérias pesquisas neste sentido – que a memória e outras qualidades cognitivas estão espalhadas por todas as células do corpo de um ser vivo, podendo ser adquiridas por outro através da deglutição, quando fragmentos de DNA e outras macro-moléculas constitutivas podem ser absorvidos e reintegrados no novo organismo, e o que parecia louca superstição dos índios se revela fato real, somos também aquilo que comemos.

Zabé é a Princesa Isabel que libertou os escravos negros do Brasil através da Lei Áurea – e não é necessário frisar a alusão alquímica do nome que a esta se atribui historicamente, talvez por influência de seus mentores intelectuais ou de sociedades secretas envolvidas no processo de conspiração em prol da república e da democracia racial com a abolição da escravatura negra, ou por uma inspiração vinda do próprio inconsciente da nação. Representa o elemento caucasiano e a cultura ocidental, o racional, o masculino e o clássico, a iluminação da consciência quotidiana. Zumbi representa o elemento escuro, o gótico, os estados alterados de consciência, o feminino, o fertilizador, o inconsciente e as outras culturas, ditas “primitivas”, que se integraram à europeia no Brasil, negros e ameríndios, bem como a revolta heróica anteposta e compondo com a estabilidade real: dois constituintes fundamentais da obra. O filho ou re-bis, o andrógino, o ser duplicado como a molécula dos cromossomos, é o mulato. Há a penetração do yang (masculino) pelo yin (feminino) e vice-versa, quando o elemento negro, emocional, feminino, é representado pelo guerreiro liberador Zumbi, que atualiza os mitos dos grandes guerreiros mitológicos, e o masculino europeu figura sob a forma de Zabé, a Princesa Isabel, que traz a suavidade da nobreza aliada à brandura feminina. É também o amor inter-racial, podem ser dois brancos ou dois negros, ou dois mulatos, ou qualquer combinação destas etnias, é o sexo anunciado como prazer gustativo, a mulher sendo “comida” e “comendo”, isto é, sendo ativa e passiva ao mesmo tempo, na relação. Poderíamos ainda fazer algumas especulações sobre os nomes Isabel e Zumbi usando a cabala fonética, pois o primeiro apresenta os radicais grego iso, que quer dizer igual, e latino bel, de guerra e beleza; enquanto o segundo apresenta sons que podem lembrar animal e vivo em grego. A questão da fusão racial, “melting pot” ou “primeiro cadinho”, no dizer de Oswald de Andrade, é acentuada ainda pela gravação que apresenta o canto em uníssono de Gilberto Gil, negro, Caetano Veloso, mulato, e Jorge Mautner, austro-brasileiro. O Ouroboros está aí assinalado pelo círculo evolutivo do tempo, pela dupla sexualidade hermafrodita (ainda como yin e yang, pois onde um está o outro invade, “come”, e vice-versa), pelo início e fim simbolizados pelo “a” e o “u” e o “z” e “b”, que se antepõem, estes dentro da mesma palavra, aqueles entre as duas. E ainda pela posição da música no disco, que aparece no início (segunda canção) e no fim (depois da décima quarta), como coda, da capo, representando a ampulheta e a energia solar da lemnascata. O Pomo das Hespérides representa o fruto solar da Obra, a evolução mental simbolizada pela realização do metal, e o caminho solar, que vai de leste a oeste. Traz ainda em si a alusão a Vênus, planeta e deusa, de onde supõem alguns (como por exemplo Jacques Carles e Michel Granger, Alquimia  superciência extraterrestre?) tenha vindo a alquimia, e que é a mater geradora do amor, a força de atração e coalizão que atua tanto na matéria e energia quanto na alma e espírito (mercúrio, enxofre e sal). O encontro de sementes do pensamento lançadas através do eixo que passa pela Ásia, a Oceania, a África, a Europa, a Atlântida e chega à América, em nosso solo fértil produz a floração da humanidade supermiscigenada, que aponta para uma nova espécie, herdeira de tudo o que se lembra e se pensa que esqueceu, na América acontece, fruto dourado do sol, aquilo que Caetano Veloso chamou de “milagres/De fé no extremo ocidente” (“Milagres do povo”, trilha musical de Tenda dos milagres).

Cumpre lembrar ainda que Sousândrade relaciona miscigenação e alquimia, quando, ao criar a bandeira do estado do Maranhão, utiliza as cores negra, branca e vermelha, símbolo das três raças e/ou das três grandes fases da Obra. E, com seu herói Guesa, que faz a guerra, errante, isto é, caminha sobre o continente, e que erra, sabe errar, pré-Macunaíma, ou melhor, como dizia Oswald: “a contribuição milinária de todos os erros”, fundando uma tradição de ruptura com toda a caretice e burrice que impera no cenário sócio-artístico-sexual do país. Foi daí que veio o veio. Veloso, as velas de uma nova caravela, para atravessar os oceanos do espaço sideral.

De Euclides a Sousândrade.
Eis a nossa (r)ev(o/e)l(u/i/a)ção(es)

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